sexta-feira, 13 de setembro de 2013

As pessoas, as coisas e o tempo

As pessoas são fundamentais umas para as outras, muito embora vivamos como quem não se apercebe disto, ocorrendo amiúde que um ser humano ache muito natural tratar o outro como se fosse coisa. As coisas, por sua vez, são meramente instrumentais na vida humana, apesar de que seja comum encontrarmos situações em que coisas são colocadas no topo das atenções, apoiando-se com peso enorme sobre a cabeça das pessoas. E o tempo é como uma teia, em que a linha temporal de cada coisa e pessoa cruza com outras inúmeras linhas, formando uma teia, que não pode ser rompida sem graves prejuízos coletivos e, por tabela, individuais.
 
O que tornam as pessoas fundamentais reciprocamente é tão óbvio que fica difícil explicar, porque afinal de contas de que valem nossas conquistas se não pudermos dividir a alegria delas com quem amamos? E como fica pobre a vida de quem se relaciona mal com as outras pessoas...
No entanto, cada dia mais, ouvimos falar e presenciamos exemplos de frieza, grosseria e todo tipo de maus tratos das pessoas reciprocamente, e até mesmo dentro de um lar, aos poucos as pessoas parecem estar perdendo a consciência de que estão tratando os outros com menos atenção carinhosa do que se dá a objetos -tente falar com um familiar na hora em que ele estiver com a "cara grudada" numa tela de eletrônicos qualquer (dica, use um escudo, rsssss).
Mas o mais triste disto não é o fato de ocorrer pandemicamente, é a incapacidade das pessoas se reconhecerem mergulhadas passivamente neste oceano absurdo de mútua alienação. O mundo afinal está cheio de pessoas que passaria horas encerando o carro no fim de semana, ou retocando a maquiagem, mas não conseguiria conviver com seus "amados" entre quatro paredes por minutos sem a intermediação das tecnologias dos "afastadores" de nosso tempo.
 
Por sua vez, é tão óbvio que as coisas são meramente instrumentais que a nossa linguagem as descrevem com expressões assim: máquina de calcular, cargo de chefia, revista de economia. A coisa (máquina, cargo, revista...) sempre é "de algo", ou seja, sua existência não tem sentido em si mesma, mas apenas enquanto se presta a nos proporcionar uma serventia: calcular ou contabilizar, chefiar ou envaidecer-se, informar ou iludir, respectivamente para as coisas antes citadas.
Contudo, muitas vezes a máquina não calcula números, mas evoluída ao nível dos computadores, analisa modos de obter lucros em tudo na vida, em toda situação, a todo preço, mesmo que isto pressuponha prejuízos graves para as relações humanas (vejam as instituições veneráveis convertidas em "fábrica" de dinheiro fácil e alienação coletiva...). Por sua vez, o cargo nem é para chefiar em si, é para satisfazer vaidades, conceder privilégios injustificáveis e facilitar interesses inconfessáveis, mesmo que isto signifique a opressão dos que não têm entrada permitida nas "panelinhas" do poder. E as revistas nem sempre são para informar, mas para chantagear, alienar, vender...mesmo que isto signifique prejudicar milhares de vidas, milhões de futuros promissores dos nossos jovens... a coisa se torna um fim em si mesma, e as pessoas nem meio são mais, tornam-se mero detalhe inconveniente ao meio do caminho...
 
Já o tempo é uma teia, mas parece que o homem tecnológico, "moderno", que se orgulha de seu saber, não tem a mínima consciência disto, e permanece vivendo na louca suposição de que seu tempo é uma linha a ser esticada independentemente das dobras do tecido, é por isto que desfia, separa-se das outras linhas de tempo das outras pessoas. Não estou dizendo que deveríamos viver como abelhas, numa colmeia sem senso de individualidade, mas apenas que não podemos ir para o outro extremo do "cada um por si". Isto não é possível, e a história recente de nosso mundo mostra isto, porque simplesmente a ciência não logrou conforto para as pessoas em sentido amplo do termo, a filosofia não as socorreu em sua ignorância quanto ao sentido da vida, e a religião tem servido mais para separar que para unir. O que ocorre? A ciência é nobre em si mesma, nos possibilita resolver problemas insolúveis de outro modo, embora não tenha ajudado o quanto poderia; e a filosofia é venerável, estimula o pensamento a transcender dogmas e superar preconceitos, ainda que esteja tíbia nos dias de hoje. E a religião, no sentido puro da palavra, é uma união com o divino, um caminho de sentimento, apesar de estar escravizada a interesses mesquinhos.
Onde está então a raiz desta tragédia?
Uma só palavra: inconsciência, ou falta de consciência. Mas consciência de que?
De que pessoas são mais importantes que coisas, e quando estes valores se invertem, as tragédias sociais, familiares e pessoais nos mostram, como pedras no sapato ou espinhos na bunda, que precisamos retomar o fluxo de consciência desta vida, sob pena de nos afogarmos no mar de preocupações das coisas e nos perdermos das pessoas, neste labirinto chamado "vida prática".
 
E no final das contas, de que servirá tanta coisa sem pessoas felizes para usufruir delas?
Estou convencido de que o melhor das coisa é o amor que elas podem despertar nas pessoas, mas o pior das pessoas é o desamor que a inconsciência pode colocar nas relações coisificadas...