quarta-feira, 29 de agosto de 2018

ÉTICA E CIDADANIA
Um MiniEnsaio Sobre o Agir e o Omitir-se

O agir tem um preço, e o omitir-se tem um custo. O ser humano circunscrito à (in)consciência comum age dentro de uma teia utilitarista imediatista, o que necessariamente tem um preço, pois é passível de ser calculado ou estimado em moeda corrente. E este mesmo ser humano, agora tomado por marionete presa às cordas do receio, omite-se geralmente para evitar consequências, segue uma (a)ética negativa ou excludente, mas comumente deixa de notar que há custos altíssimos associados a esta evitação.
Via de regra, calcular o preço do agir é fácil: salário, comissão, lucro, participação, dividendos, juros e a famigerada propina ou vantagem pecuniária indevida, incluindo cargos e gratificações. Há, portanto, o agir limpo perante a ética de um tempo, e o agir imundo, nem sempre revelado, nem sempre descoberto, nem sempre punido, mas imundo perante a ética de um povo. Não se trata, pois, de condenar a associação entre o agir e seu preço, ou recompensa pecuniária, mas de entender que a preços cujo custo moral é alto demais, por causo do potencial danoso à coletividade.
Já a omissão tem custo, pois comumente os danos delas emergidos atingem bens tão preciosos que nem poderiam ser indenizados: degradação ambiental, mal uso dos cofres públicos, mortes, lesões corporais, traumas psicológicos, manchas na imagem pública ou simplesmente o abastardamento detestável do famigerado "homem médio", que não vive, pois não se engaja em causas sociais ou coletivas, ele apenas passa por este mundo como um ocupador de lugar, aperta botões em troca de um salário e aguarda o tempo passar enquanto se queixa dos males do governo, da sociedade, do mundo.
Também não cuida-se aqui de condenar o omisso, nada disto, nossa própria lei ou regra moral coletiva prevê e recepciona, muitas vezes com aplausos, a figura do bom cidadão ou boa cidadã, que vive na condição morna dos que se deixam levar pelos ventos de sua época. Não há condenação aqui contra eles, há apenas um lamento... o humano tem sempre o potencial de se tornar muito mais que a média e contribuir para o bem estar das coletividades atuais e futuras muito mais, ainda que anônimo passe na história, visto que ser reconhecido é coisa de preço, se quantifica o valor (em R$), basta ver os que se tornaram adversários e perseguidores de seus anteriores amigos, tão logo assumiram um daqueles cargos ou postos comissionados muito próprio dos que se omitem enquanto pensam estar agindo...
Por tudo isto é que se pode sintetizar o seguinte: a pessoa comum é pouco dada a reflexões éticas ou existenciais e, por isto, se submete passivamente à precificação de seu agir cotidianamente, até o dia em que nem perceba, mas chegou ao ponto de vender a própria alma por R$397,00 a mais por mês ou algo que o valha; mas ela não é de forma alguma detestável, visto que há multidões que deixam de fazer, lutar, criar, transformar... simplesmente para não terem de se comprometer com coisas, situações e pessoas difíceis, e estas multidões são prisioneiras de uma esquiva com consequências não precificáveis, tais como abastardamento mental, hipnotização pelas telas eletrônicas, repetição automática de frases feitas, esforço interminável para se justificar, vida afora, em frases mentais ou verbais muito tristes, como "não posso fazer nada" ou mesmo o melancólico "quem sou eu para mudar o mundo"...
As primeiras merecem compaixão, e as segundas... não tenho certeza se digo compaixão ou pena, desculpem-me por não poder me decidir sobre isto, vou me omitir aqui ()...
E aos seres raros que ainda se propõem a serem indutores das melhorias sociais, do desenvolvimento das coletividades, numa época de tanto desânimo e desalento, eu diria... é melhor caminhar pela vida e enfrentar a possível frustração de ter conseguido menos do que se queria produzir do que se tornar mais uma marionete do poder, que se alegra ao manter tudo como está...