ÉTICA E CIDADANIA
Um MiniEnsaio Sobre o Agir e o Omitir-se
O
agir tem um preço, e o omitir-se tem um custo. O ser humano
circunscrito à (in)consciência comum age dentro de uma teia utilitarista
imediatista, o que necessariamente tem um preço, pois é passível de ser
calculado ou estimado em moeda corrente. E este mesmo ser humano, agora
tomado por marionete presa às cordas do receio, omite-se geralmente
para evitar consequências, segue uma (a)ética negativa ou excludente,
mas comumente deixa de notar que há custos altíssimos associados a esta
evitação.
Via de regra, calcular o preço do agir é fácil:
salário, comissão, lucro, participação, dividendos, juros e a famigerada
propina ou vantagem pecuniária indevida, incluindo cargos e
gratificações. Há, portanto, o agir limpo perante a ética de um tempo, e
o agir imundo, nem sempre revelado, nem sempre descoberto, nem sempre
punido, mas imundo perante a ética de um povo. Não se trata, pois, de
condenar a associação entre o agir e seu preço, ou recompensa
pecuniária, mas de entender que a preços cujo custo moral é alto demais,
por causo do potencial danoso à coletividade.
Já a omissão tem
custo, pois comumente os danos delas emergidos atingem bens tão
preciosos que nem poderiam ser indenizados: degradação ambiental, mal
uso dos cofres públicos, mortes, lesões corporais, traumas psicológicos,
manchas na imagem pública ou simplesmente o abastardamento detestável
do famigerado "homem médio", que não vive, pois não se engaja em causas
sociais ou coletivas, ele apenas passa por este mundo como um ocupador
de lugar, aperta botões em troca de um salário e aguarda o tempo passar
enquanto se queixa dos males do governo, da sociedade, do mundo.
Também
não cuida-se aqui de condenar o omisso, nada disto, nossa própria lei
ou regra moral coletiva prevê e recepciona, muitas vezes com aplausos, a
figura do bom cidadão ou boa cidadã, que vive na condição morna dos que
se deixam levar pelos ventos de sua época. Não há condenação aqui
contra eles, há apenas um lamento... o humano tem sempre o potencial de
se tornar muito mais que a média e contribuir para o bem estar das
coletividades atuais e futuras muito mais, ainda que anônimo passe na
história, visto que ser reconhecido é coisa de preço, se quantifica o
valor (em R$), basta ver os que se tornaram adversários e perseguidores
de seus anteriores amigos, tão logo assumiram um daqueles cargos ou
postos comissionados muito próprio dos que se omitem enquanto pensam
estar agindo...
Por tudo isto é que se pode sintetizar o
seguinte: a pessoa comum é pouco dada a reflexões éticas ou existenciais
e, por isto, se submete passivamente à precificação de seu agir
cotidianamente, até o dia em que nem perceba, mas chegou ao ponto de
vender a própria alma por R$397,00 a mais por mês ou algo que o valha;
mas ela não é de forma alguma detestável, visto que há multidões que
deixam de fazer, lutar, criar, transformar... simplesmente para não
terem de se comprometer com coisas, situações e pessoas difíceis, e
estas multidões são prisioneiras de uma esquiva com consequências não
precificáveis, tais como abastardamento mental, hipnotização pelas telas
eletrônicas, repetição automática de frases feitas, esforço
interminável para se justificar, vida afora, em frases mentais ou
verbais muito tristes, como "não posso fazer nada" ou mesmo o
melancólico "quem sou eu para mudar o mundo"...
As primeiras
merecem compaixão, e as segundas... não tenho certeza se digo compaixão
ou pena, desculpem-me por não poder me decidir sobre isto, vou me omitir
aqui (

)...
E
aos seres raros que ainda se propõem a serem indutores das melhorias
sociais, do desenvolvimento das coletividades, numa época de tanto
desânimo e desalento, eu diria... é melhor caminhar pela vida e
enfrentar a possível frustração de ter conseguido menos do que se queria
produzir do que se tornar mais uma marionete do poder, que se alegra ao
manter tudo como está...
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