Amor Próprio - Princípio da
Dignidade
O mundo está repleto de pessoas que perderam, de
alguma forma, parte da (ou até mesmo toda a) dignidade. E todas estas pessoas
passaram ou passam por pelo menos um de três processos: espoliação, penhor ou
renúncia. A espoliação tem causas mais externas que internas, é uma coerção
violenta. O penhor é a troca de um valor ou princípio por uma vantagem ou coisa
assim. E a renúncia é a fuga de campo antes que o juiz dê o apito final. Cada um
destes processos leva ou pressupõe uma natureza de sofrimentos bem específica,
mas o mais degradante de todos eles é sem dúvidas a renúncia.
Na espoliação, interesses sociais ou econômicos
poderosos impõe, pela força física ou econômica ou mesmo "moral", situações
degradantes a grupos de pessoas que têm bem pouca possibilidade de resistir.
Encontram-se neste grupo, dentre outras categorias de oprimidos, as vítimas da
violência doméstica (em maior parte mulheres pobres e crianças), os analfabetos,
os pobres em geral, os trabalhadores (em sua maioria da iniciativa privada e,
cada vez mais, os empregados pelo Estado). É uma categoria histórica de opressão
que nada tem de novidade, começou no mundo imperial e chegou hoje ao mundo da
democracia quase sem alteração. O que mais ele rouba do ser humano não é nem
tanto sua dignidade, é seu modo de acesso ao bem estar, ao progresso e à paz
verdadeira.
Ao contrário, no penhor, o que ocorre é uma "venda
da alma ao diabo', aos moldes de Fausto: em troca de um osso, a cadelinha aceita
sentar-se, deitar-se, rolar e fazer au au... O que mais se perde em termos de
dignidade neste caso é o amor próprio, respeito a si mesmo e, perdendo isto, de
ninguém mais o penhorador pode esperar respeito, é a decretação definitiva da
falência, não de sua vida material, mas de sua própria alma. Quem se perde neste
horrenda ofensa à mais básica moral inicia-se num processo de degradação que há
de gerar espetáculos de repúdio, como os que hoje em dia estamos todo dia tendo
notícias (pela imprensa tradicional ou pelos meios de comunicação alternativa
que se esforçam por furar os filtros dos "donos da informação"
mundial).
Já a renúncia é o terceiro vértice deste triângulo
sinistro, vértice este igualmente distante da espoliação e do penhor. É
contraponto da espoliação porque, nesta, a dignidade é literalmente arrancada,
com a violência semelhante à dos Cruzados que arrancavam o coração dos
prisioneiros de Guerra Santa antes mesmo de matá-los, enquanto que naquela, o
prisioneiro mesmo toma do punhal, arranca seu coração, entrega-o em bandeja de
prata e ainda se ajoelha diante do guerreiro maldito para venerá-lo... ainda bem
que hoje em dia "não existe" nada de parecido com isto no mundo em que
vivemos...
Por tudo isto (ai como é chata esta estrutura
clássica de textos em que a gente usa o último parágrafo para retomar os outros
e fazer um fecho...), podemos entender facilmente que a vida cotidiana hoje em
dia exige de nós uma atitude firme para sermos dignos, pois se é verdade que em
muitas coisas todos seremos espoliados sem ter muito como reagir, em outras a
espoliação se aproxima muito da renúncia, e não é raro que seja difícil decidier
se uma vivência de situação indigna é fruto do penhor ou da espoliação (ou será
que eu quis dizer renúncia? chi... detestei tanto esta tarefa de concluir este
texto que acabei me perdendo no raciocínio...).
